REPORTAGEM
Parque da Saúde: O fim das "instalações muito ultrapassadas"

Aquele que é o segundo maior investimento do país em novas unidades de saúde, de mais de nove milhões de euros, nasce em Lamego para pôr fim à dispersão e falta de condições dos serviços de saúde primários. O futuro Parque da Saúde é um "edifício gigante" que, como esclarece o Presidente da Câmara, "é um investimento grande, mas é um investimento para o futuro", prometendo reorganizar os cuidados para as próximas décadas.
Rita Rodrigues Texto e fotografia
É na Avenida das Acácias, junto às antigas instalações do Hospital Distrital de Lamego, que o som das escavações, iniciado em março de 2025, anuncia uma nova era. Com um investimento de 9 milhões e 637 mil euros, o futuro Parque da Saúde de Lamego é uma das maiores dotações do país financiadas pelo PRR – Plano de Recuperação e Resiliência – e promete ser o incentivo que faltava para a modernização dos cuidados de saúde primários no concelho.
O investimento surge para pôr fim à dispersão e falta de condições dos serviços de saúde primários. O Presidente da Câmara de Lamego, Francisco Lopes, valida as falhas notáveis, assumindo que havia uma "carência muito grande que estava identificada há muitos anos". Este problema centra-se no custo das rendas, na logística e na degradação dos antigos edifícios. Margarida, de 25 anos, utente da Unidade de Saúde Familiar (USF) Almedina, afirma que as instalações já estão "muito ultrapassadas, já há sinais de degradação no edifício, escadas em tijolo, pronto, as condições já não são as melhores". Olinda, enfermeira na Unidade Hospitalar de Lamego- Unidade Local de Saúde de Trás-os-Montes e Alto Douro – e utente do Centro de Saúde Douro Vita, refere que as suas instalações são "muito boas", mas que o custo da dispersão é insustentável. "As instalações do Centro de Saúde onde sou atendida são muito boas, mas implicam um encargo mensal com a renda muito elevada para o estado", aponta.



Instalações atuais USF Almedina e Unidade de Saúde Pública CDP
O diagnóstico de carência nas instalações da USF Almedina é reforçado por Rui, de 58 anos, que faz questão de distinguir a qualidade do serviço dos profissionais das condições físicas. "A USF Almedina tem condições inadequadas. Não pelo serviço, que nada tenho a dizer, mas pela localização e, fundamentalmente, pelas instalações. As instalações são pequenas, tudo muito concentrado, sala de espera muito reduzida e consultórios exíguos", detalha o utente, acrescentando que a unidade "já não comporta o número de utentes que diariamente se deslocam" até ao local.
O novo Parque da Saúde não se distingue apenas por ser um grande investimento, mas também pela sua arquitetura funcional e sustentável. Este projeto prevê um “edifício gigante” de cinco pisos, que “vai permitir a reorganização dos cuidados primários de saúde no nosso concelho por várias décadas, não tenho dúvida, sem alterações significativas... digamos que é um investimento grande, mas é um investimento para o futuro”, esclarece o Presidente da Câmara. Esta concentração de serviços, que inclui a USF Almedina, USF Douro Vita, Unidade de Saúde Pública e o Centro de Diagnóstico Pneumológico (CDP), é reconhecida pelos profissionais como uma mais-valia.
É também um projeto identificado como urgente e prioritário pelos utentes, “é uma obra prioritária e já 'esperada' há algum tempo pelos utentes desta cidade," refere Rui, utente da USF Almedina. A principal expectativa recai na melhoria da eficiência da nova estrutura, nomeadamente na "fundamental marcação das consultas" e no acesso, dada a nova localização em "zona de bom acesso".
"O facto de os profissionais de saúde passarem a trabalhar num único edifício vai melhorar significativamente a comunicação entre as equipas, o que vai simplificar a logística e a articulação entre os profissionais," explica uma enfermeira do Centro de Saúde Douro Vita, responsável pela Equipa de Cuidados Continuados Integrados (ECCI) de Lamego. A profissional garante que as condições de trabalho serão "mais adequadas e eficientes com os espaços mais funcionais".



Instalações atuais USF Douro Vita
Contudo, a concentração levanta a primeira dúvida nos utentes. Daniela, de 20 anos, utente do Centro de Saúde Douro Vita, teme que o tempo de espera "corra o risco de aumentar ao invés de diminuir". A sua preocupação é que o edifício se torne num polo de congestionamento, uma vez que a obra se foca em reunir tudo no mesmo local.
O Presidente Francisco Lopes afasta este receio, garantindo que o edifício está organizado por pisos e valências distintas, com acessos independentes, "As pessoas não se vão atrapalhar para entrar e serem atendidos... muito pelo contrário". O edifício estará preparado para receber "muita gente de uma forma absolutamente diferente daquela que acontece hoje", contando com "estacionamento abundante" e espaços de distribuição amplos.
Apesar da excelência da nova infraestrutura, o maior ponto de tensão reside na mobilidade e nos custos adicionais para os utentes das freguesias rurais. A enfermeira responsável pela ECCI Lamego, que trabalha na USF Douro Vita, confirma que uma das queixas mais comuns dos utentes é que "os transportes públicos nem sempre permitem chegar com facilidade aos serviços de saúde, principalmente nas freguesias mais distantes. Isso leva muitas vezes os utentes a terem que recorrer a transportes privados, como táxis, o que acaba por acarretar custos adicionais, que muitos têm dificuldade em suportar."
Confrontado com este alerta, o Presidente Francisco Lopes é categórico, o plano de transportes não será reforçado, defendendo que a rede atual "é plenamente satisfatória para as necessidades dos utentes". O Presidente explica ainda que, ao longo do tempo, a perda do serviço de proximidade nas extensões de saúde ocorreu por "falta de pessoal médico para cumprir essa função em regime de proximidade".
O acesso ideal, defende o autarca, seria a ida dos profissionais às freguesias, mas como não é possível, "temos de trazer todos os utentes dos serviços de saúde das freguesias para a unidade de saúde".
Com um prazo de nove meses pela frente, Lamego assiste à edificação do seu maior projeto de saúde dos últimos anos, um marco que, segundo a autarquia, garantirá o acesso equitativo a cuidados de excelência para o futuro da região. O Parque da Saúde é, inegavelmente, um passo histórico para a qualidade da saúde em Lamego e uma solução de longo prazo para as carências de infraestrutura. No entanto, o seu verdadeiro sucesso será medido não só pela excelência da sua estrutura, mas pela garantia de que a melhoria na prestação dos cuidados chegue a todos. O Presidente Francisco Lopes sublinha que o futuro deverá significar "maior exigência relativamente à qualidade da prestação dos serviços de saúde", apelando a um novo modelo "mais descentralizado" e "colaborativo" que reforce o envolvimento da autarquia na área da saúde.


